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27 de fev de 2011

O Terceiro Ano....

Logo que você completou dois anos seu irmão nasceu lá na Bahia, um pouco antes, Edna me contou que o atual marido não a tratava muito bem, então eu e seu tio sugerimos que Edna viesse ter o bebê aqui na casa dele para descansar um pouco (ela manifestava a vontade de te ver), ela queria vir, mas tinha receio do marido que nunca foi o mais gentil dos homens, eu sentia muita saudade dela, e só o fato de saber que ela não estava muito feliz (ou melhor nada feliz )no casamento me angustiava, eu evitava de falar com ela ao telefone, preferia saber notícias através do Tio Dada, e parte dos acontecimentos eu escondia do seu pai, ele também tinha um amor por Edna, e apesar de desaprovar meu relacionamento tão estreito com a sua família  biologica, nunca interferiu, gostava dela, ou tinha gratidão (não sei ao certo a palavra). Edna  não teve infância, sua mãe (eu me lembro dela filho) sofreu um acidente de Jeep na Bahia, e com ela estava os três filhos, Edna e seus dois tios, e a partir do acidente o tio Dada cuidou dos dois menores, pois seu avô materno nunca parou em nenhum porto.

Ela deciciu não vir, pois o marido não deixou (era um direito dele), eu me apressei em fazer o enxoval do seu irmão e enviar o mais rápido possível (juntos foram alguns ursos de pelúcia que ela sempre pedia pro seu pai), ficamos todos muito tristes, afinal era a chance dela se livrar daqueles grampos e daquele homem que nunca soube o valor de uma menina mulher, que já apanhava da vida desde a infância. Seu irmão Pedro Henrique nasceu, era uma criança especial, nasceu com vários problemas, mais uma vez eu contei com a ajuda de parentes médico e políticos para que ele tivesse o melhor acompanhamento, fez algumas cirurgias, nessa ocasião Edna mudou-se para uma sítio junto com o marido, e devagarinho seu irmãozinho foi aprendendo a andar, só não falava, fisicamente igual a você, apesar de serem de pais diferente...Pedro Henrique morreu atropelado  por um caminhão no sítio em que moravam com um pouco mais de dois anos de idade na semana em que começou a andar com um pouco mais de desenvoltura, nós só o conhecemos por fotos que guardo como se fosse um tesouro, engraçado filho: Depois que seu pai despareceu, nunca mais você perguntou dele, será que você o esqueceu? Não sei!

Por aqui você continuava crescendo, forte, inteligente, seu pai não dava um passo sequer sem você, se orgulhava e contava para todo mundo que com menos de três anos, você já contava até dez em inglês, escrevia seu nome, Beto, Sônia, Xico, Fiona  Leon e Day (Dayanne sua professora), e já lia algumas palavras, nesse ano mamãe também foi sua professora de artes, e voce me dava mais trabalho que seus outros dezenove amiguinhos juntos. A noite, você nunca se contentava em ouvir apenas uma historinha antes de dormir, tinha que ser uma lida e interpretada por mim, e outra por seu pai (a casa era pequena para as interpretações do seu pai, que saudades fiho), a dor é tão grande, tão latente, que muitas vezes minha cabeça fica meio confusa, sem saber se tudo o que vivemos foi realidade, ou se tem algumas coisas que vivi apenas em sonho.

Eu sugeri ao seu pai para que você fosse para a Escola em um transporte escolar (como a maioria das crianças) várias noites de conversa, seu pai buscou informações com pais dos seus amiguinhos, ele meio relutante acabou aceitando, as idas e vindas a Escola absorvia muito tempo,  eu era professora de artes da sua escola . Você se adaptou muito bem ao transporte, mas não durou nem um mês filho, seu pai não estava satisfeito, ele se desdobrava, mas não confiava em ninguém (nem em mim), e mais uma vez ele voltou a te levar e buscar todos os dias, de todas as maneiras possíveis: A pé contigo sentado no pesoço dele, de ônibus, de carro, não importava a maneira, mas esse trabalho ninguém podia tirar dele, ninguém.

Em uma noite qualquer, depois da interpretação da historinha, estava você, seu pai e seus irmãos de 4 patas deitados em um colchão na sala, comendo todos os doces e bolachas possíveis:

- Papis, eu quero um fusca!
- O pai não comprou um vermelhinho e a perua vermelha para você no camelô na Lapa ontem "fio"?
- Pai, eu quero um fusca de verdade, quero um fusca branco pai, eu acho lindo pai, e você é o "melhor meu amigo pai", compra um fusca pai...(você falava repetidamente a palavra pai).
- Vamos escovar os dentes para domir "fio", amanhã a gente conversa.
claro que eu não dei importância a essa conversa filho, no dia seguinte a tarde...
- Sônia, tenho uma coisa para te contar (você estava na escola).
- Fala Zé!
- Eu comprei um fusca branco...(silêncio, e eu tentando absorver o que tinha acabado de ouvir).
- Não entendi Zé, repita!
- E U  C O M P R E I  U M  F U S C A  B R A N C O...
- Beto, não dá para acreditar,quando que você vai começar a impor limites para o Santhiago? Você nem cabe dentro de um fusca.
- Deixa eu fazer meu filho feliz Sônia, na hora certa eu vou saber dizer "não", é um sonho dele, e um sonho meu também (mentiu), ele está meio ruim, mas eu vou arrumar inteirinho, vou colocar até umas rodas novas, vai ficar lindo, vou tirar o banco de trás e encher de brinquedos, vou fazer tudo o que precisa nele, você vai ver, e além do mais o Wagner estava precisando vender o fusca, assim eu o ajudo também.

Ele estava muito feliz, não havia mais o que questionar, e a partir daquele dia seu pai começou a arrumar aquele fusca, decidimos que só iriámos contar para você quando ele estivesse pronto...







15 comentários:

Maria Helena disse...

A história de Santhiago me comove muito! Cada pedacinho que é postado me enche de encantamento e me faz perceber a luta e o amor que vocês carregam dentro de si.
Passagem linda que enche o meu coração de ternura!
Bjs!

lolipop disse...

Meu deus...que amor intenso esse...desculpa eu dizer isto Sóninha, mas a quantos é dada a oportunidade duma vida inteira para serem pais, sem nunca experimentarem este amor enorme...
Beijos enormes
Ternuras

Pandora disse...

Desculpa duplamente Sonia, mas é como disse a Lolipop: "a quantos é dada a oportunidade duma vida inteira para serem pais, sem nunca experimentarem este amor enorme..."!!!

É algo de encher o coração!!!

Sônia Cristina disse...

Lolipop e Pandora.

É exatamente isso que vocês disseram, não me peçam desculpas, foram 5 anos de um amor intenso, por isso escrevo para que as memórias fiquem guardadas, pra ele saber como foi e é amado.

Lívia Azzi disse...

Olá Sonia!

A memória é uma marca transcendental que ultrapassa os limites do que existiu e do que foi imaginado. O amor sela as lembranças.

Estou te seguindo também, já nos conhecemos... empolgada com o blog podem contar com minha colaboração!

Beijinhos e boa semana...

Nilce disse...

Oi minha amiga querida

Saudades de vocês dois.
Queria saber como você está, Sônia. Manda-me um e-mail contando: nilcegibson@yahoo.com.br

Você sabe muito bem o quanto choro com seus relatos. Cada passagem linda, muito amor, dedicação e carinho.
Essas marcas serão eternas na vida do Santhiago e você faz parte de tudo isso.
Seja forte, cada dia mais querida e conte comigo sempre.

Bjs no coração!

Nilce

Néia disse...

oi Linda...]
Mais um capítulo fascinante onde após ler fico imaginando a cena entre um homem apaixonado pelo filho e disposto a fazê-lo feliz.Foi apenas isto Sônia, ele não queria quebrar limites e nem tão pouco deixar Santhiago achando que tudo podia, ele só desejou ver o filho feliz, nada mais...
Não sou a pessoa mais indicada, mas sempre digo que amor demais não faz mal, ao contrário, nos deixa forte e confiante para enfrentar o mundo lá fora.É claro que se Santhiago pedisse um foguete, não seria possível, daí tenho certeza que ele encontraria uma forma de explicar.Ele amou o filho da forma mais intensa numa relação que com certeza já estava escrita lá no céu.
Ainda quero ler o livro: A história de Santhiago...
beijos e uma ótima semana.

Sônia Cristina disse...

Oi Linda Lívia, muito feliz em te ver por aqui, obrigada! Nosso trabalho será lindo, tenho certeza disso.

Nilce já te enviei o e-mail
querida que saudades, como sentimos sua falta, sempre quando posto algo no blog eu fico esperando não o seu comentário, mas o seu colo, eu sempre me sinto abraçada por ti e pela Maria Helena, obrigada por tudo.

Néia, ontem eu te abracei tanto em pensamentos, fiz tanto afago na sua cabeça...
com certeza amada, ela não queria quebrar limites, ele só queria ser feliz, creio que mesmo não tendo noção, ele recebia mensagens do subsconsciente dizendo "viva intensamente, são só 5 anos Beto".
engraçado, como você, Maria Helena e mais algumas pessoas torcem para que esse livro aconteceça, se ele tiver em nosso destino, ele irá acontecer, eu creio muito na força do pensamento e creio que vocês que tanto torcem farão com que este livro aconteça...

AMO CADA UMA DE VOCÊS.

Beth/Lilás disse...

Sonia querida!
Realmente o amor deste pai era intenso demais, por isso é tão difícil para vocês cortarem esta simbiose que dura até hoje.
Mas, pensando bem, é melhor sofrer a falta deste amor maravilhoso do que sofrer a falta daquilo que nunca teve.
Linda esta foto dos dois!
bjs cariocas

Blog da Fofa disse...

Oi Soninha. Que paizão, hein? Feliz do Santhiago por ter tido a oportunidade de ter um pai tão especial. Muito triste essa história do irmãozinho dele. Sei que o Beto olha por vcs. Um grande beijo

nacasadorau disse...

Amiga Sônia!

Como não estava a seguir todo o conto, terei que voltar para ler de trás se quero entender tudo direito.

O que li neste texto que promete continuação, é mesmo uma história verdadeiramente emocionante e de grande dádiva de amor.

Não sei se percebi o que aparentemente está implícito, seu filho morreu ou foi o pai? Santhiago???
É como te disse, voltarei e lerei com todo o prazer todos os outros textos.

Beijo doce.

Lúcia Soares disse...

Sônia, também gostaria de ler a História de Santhiago. Manusear, voltar em certas passagens, marcar algumas, enfim, será um lindo livro.
Santhiago tem tudo para ser um homem muito feliz e realizado.
Esse pai nunca deixará de existir.
Beijo!

Edson disse...

Sempre dou uma olhada no todo do blog antes de escrever, assim a sensibilidade aflora, principalmente quando vejo a foto do Beto, acho que ainda não sabem, estou morando no interior de Sampa, longe de tudo e de todos que me rodeavam, sinto tanta falta de tudo isso...e estando assim longe de tudo e de todos, ainda sinto o Beto por perto, como se estivesse sempre a minha espera quando eu tocar a campainha e ele vir daquele jeito bobo de quem não queria receber visitas naquela hora...mas bastariam alguns segundos pra estarmos conversando sobre... tudo e todos...sinto muita saudade... de tudo e de todos...

Nina disse...

Fiquei mt mt triste por saber da morte do pequeno Pedro Henrique :-(

e mt alegre em ver esse amor bonito do seu bom José pelo seu Santhi, encantador simplesmente!